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  • Camila Lafetá Sesana

Transtornos alimentares na maturidade: uma questão de invisibilidade?

Post publicado originalmente em 31/10/2019, no site do Genta


Há alguns dias, a BBC publicou uma matéria sobre as dificuldades de pessoas diagnosticadas com transtornos alimentares (TA) na terceira idade encontram ao buscar tratamento[1]. Apesar de não haver uma política de restrição etária para tratamento de TA segundo o National Health Service (NHS), o sistema de saúde pública universal do Reino Unido, o levantamento feito pela BBC em 49 clínicas especializadas na Inglaterra e no País de Gales encontrou três que previam expressamente uma idade limite de 65 anos – nesses casos, os pacientes seriam encaminhados para clínicas geriátricas de saúde mental. Além disso, outros centros de tratamento não contavam com especialistas no tratamento de pacientes acima dos 18 anos, apenas de crianças e adolescentes.

A matéria cita uma estimativa de que 1,25 milhões de pessoas sofrem de TA no Reino Unido, mas esclarece que não há dados sobre a parcela afetada na terceira idade. O Royal College of Psychiatrists, entidade profissional que congrega psiquiatras daqueles países, reconhece que há um grave problema de sub-diagnóstico, seja por desconhecimento, estigma ou questões geracionais em relação à saúde mental. É comum que sintomas alimentares sejam ignorados ou confundidos com a apresentação de outros quadros psíquicos.

Não é à toa que as campanhas de conscientização sobre TA em todo o mundo insistam na tecla de que essas doenças não discriminam sexo, etnia, grau de instrução, situação socioeconômica ou idade. Mesmo na área médica, ainda predomina a noção de que os TA são síndromes típicas da adolescência.

Dados europeus mostram que o número de diagnósticos de anorexia nervosa (AN), bulimia nervosa (BN) e transtorno da compulsão alimentar (TCA) na população feminina tendem a declinar com a idade, mas nunca chegam a desaparecer. As estimativas mais aceitas de prevalência pontual de TA na maturidade giram em torno de 4%, considerando países do hemisfério norte e a Austrália. O risco parece ser significativamente maior para o TCA (0.61%), comparado ao de AN (0.17%) e BN (0.21%). Os casos de início tardio também podem não ser tão raros: uma revisão de relatos de caso com indivíduos maiores de 50 anos detectou em 69% deles nunca haviam sido diagnosticados antes[2].

Uma hipótese interessante para o surgimento de TA em mulheres na meia idade sugere que, assim como ocorre na puberdade, a perimenopausa (período de anos que antecede a menopausa) é um período de grande oscilação dos níveis de estrógenos, que parecem estar implicados na “ativação” de genes de susceptibilidade às doenças. Assim, tanto o início quanto o final da vida reprodutiva seriam janelas de vulnerabilidade para o desenvolvimento de TA2.

Em razão dos processos naturais do envelhecimento, o organismo tem menor capacidade de recuperação e de tolerância a injúrias provocadas pela desnutrição e por comportamentos de restrição, compulsão e purgação. Assim, pacientes mais velhos têm mais complicações clínicas. Com menos acesso a tratamento – e com tratamentos pouco ou nada adaptados a essa fase da vida – o prejuízo na qualidade de vida e na sobrevida é incontornável. A invisibilidade tem seu preço.


Referências

[1] Eating disorders: Over-65s unable to access some clinics. Disponível em: https://www.bbc.com/news/health-50087460.

[2] BAKER, J.H.; RUNFOLA, C.D. Eating disorders in midlife women: A perimenopausal disorder? Maturitas, v. 85, p. 112-116, 2016. Disponível em: https://www.maturitas.org/article/S0378-5122(15)30089-X/abstract.

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