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  • Camila Lafetá Sesana

Há poesia na passagem do tempo

Post publicado originalmente em 21/05/2018, no site do Genta

"The shooting stars in

your black hair

in bright formation

are flocking where,

so straight, so soon?"

The Shampoo[1]

Elizabeth Bishop, poeta americana



Se viver sob a pressão de padrões de beleza inalcançáveis desde o final da infância é exaustivo, como será viver em um corpo feminino que não só foge aos padrões, como também começa a envelhecer?

Esperamos ter a vida "resolvida" depois dos 40 anos. Carreiras estabelecidas, inseguranças e urgências da juventude serenadas, laços afetivos consolidados – tudo bem diferente do que era há 15, 20 anos. Tudo, menos a aparência.

No consultório e na vida pessoal, a insatisfação com a mudança de peso e as transformações das formas corporais é expressada com culpa, rancor, tristeza e desesperança. São os braços, "gordos" e "flácidos", que expulsaram todas as roupas sem manga do armário. Bigode chinês, pés de galinha, queixo duplo. O inconformismo com a balança que não mostra mais os números que mostrava na época da faculdade ou antes da maternidade. A cintura que alarga, a barriga que cresce, a gordura localizada, a roupa que aperta e a recusa em comprar novas roupas de novos tamanhos.

Pausa para uma ironia biológica: mulheres passam a acumular gordura na região abdominal na maturidade para compensar o declínio da produção de hormônios femininos causada pelo envelhecimento dos ovários. Estrógenos são hormônios sintetizados a partir da gordura. Em outras palavras, a cintura vai se alargando para que a elasticidade e o viço de pele e cabelos perdurem e, mais tarde, para amenizar os efeitos indesejáveis da própria menopausa. A gordura é nossa amiga, afinal de contas!

Toda mudança de estágio de vida traz seus estranhamentos, é natural. A armadilha está em associar a estima corporal à auto-estima. Somos muito mais que nossos corpos. Nossos corpos são infinitamente mais do que seu aspecto. Reconhecer e admirar a funcionalidade e as sensações de bem estar e prazer que o corpo pode proporcionar são formas poderosas de começar a desatar esse nó.

O olhar amoroso de Elizabeth Bishop via a beleza das estrelas cadentes nos cabelos brancos da amada. Para as mulheres maduras, proponho o exercício de tentar encontrar beleza, com amor e auto-compaixão, no corpo que as trouxe até aqui.

[1] "No teu cabelo negro/brilham estrelas/cadentes, arredias./Por onde irão elas/tão cedo, resolutas?" BISHOP, Elizabeth. The Shampoo/O Banho de Xampu. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. Edição bilingue. 1a ed. São Paulo-SP: Companhia das Letras, 2012.

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